O que exatamente St-Pierre deve a nós e ao UFC?

Renato Rebelo | 18/12/2013 às 06:50
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Suando em Vegas

Se você passou a última semana enclausurado num abrigo nuclear soviético, venho informar que Georges St-Pierre renunciou ao cinturão do UFC para tirar férias por tempo indeterminado.

A possibilidade do canadense jamais retornar ao octógono e passar o resto da vida curtindo a bolada que acumulou ao longo de quase 12 anos de truculência diária também é factível.

Essa decisão, uma das mais impactantes no mundinho do MMA em 2013, respingou numa galera e pode ser abordada por vários ângulos.

Primeiro, vale lembrar que, logo após a contestada vitória sobre Johny Hendricks, Dana White teve um faniquito ao notar que sua galinha dos ovos de ouro pediria as contas:

Você deve aos fãs, você deve ao cinturão, você deve a essa companhia e você deve ao Hendricks a oportunidade de lutar novamente… Não tem essa de ir para um cruzeiro, sair por dois anos, ficar ausente. Sei lá o que ele quis dizer, mas não é assim que funciona.

Alguns dias depois, o cerebral Lorenzo Fertitta, com panos quentes, tentou consertar a lambança do sócio emotivo:

O GSP não nos deve nada. Se ele escolher se aposentar, então que seja assim. Ele vai ser alguém que será sempre admirado como um dos grandes campeões do UFC. Acho que o Dana foi mal entendido e acho que ele está tentando esclarecer isso – disse o executivo ao site MMA Fighting.

Fãs mundo afora também tiveram certa dificuldade com a digestão da novidade.

Para muitos, abandonar o barco logo após levar um calor federal do barbudo ficou parecendo manobra conveniente –quiçá covarde- do campeão meio-médio.

Mas a real é que GSP já vinha dando sinais de desgaste há algum tempo.

Antes mesmo da luta contra o Carlos Condit ele já estava confuso e não sabia se queria continuar lutando. Toda hora ele trazia esse assunto à toma… O problema é que eu tinha que cortá-lo, pois estávamos no meio do “camp” e não tínhamos tempo para ter uma discussão profunda sobre o tema – declarou o treinador Firas Zahabi no programa MMA Hour, do jornalista Ariel Helwani.

Com a poeira mais baixa, vamos tentar entender se o quebequense deixa ou não o nomezinho sujo na praça.

Pra começar, estamos falando de um “homo economicus” como qualquer outro.

Em não sei quantos mil anos de história, ainda não foi inventado outro mecanismo de incentivo mais eficiente que o capital.

Fama, notoriedade em geral, realizações pessoais e outros benefícios são secundários e vêm de carona.

Acontece que, quando a geladeira está cheia, o excesso de tudo isso que 99% da população sonha em ter pode se torna um fardo.

Como diria o Rei de Nova York: “Mais dinheiro, mais problemas”.

As dezenas de milhões de dólares anuais vêm acompanhadas por pressão colossal, responsabilidade desumana, 24 horas de vigília diária, privações, perda de liberdade de ir e vir, falta de contato com entes queridos, exposição em excesso, críticas ininterruptas, chagas físicas, etc, etc.

Na ponta do lápis, o “trade off” passou a não valer mais a pena para o indivíduo em questão.

Acreditem em mim, o GSP é muito rico. Ele tem dinheiro pra mandar qualquer um se ferrar (“fuck you money”) – disse Dana pós-UFC on Fox 9.

Entender que o camarada tirou o time de campo em busca de paz de espírito é até simples, mas a pergunta do título persiste.

Aí, trago à mesa minha contabilidade aplicada ao setor carniceiro.

O popular GSP foi a principal estrela de 12 eventos (UFCs 65, 69, 79, 83, 87, 94, 111, 124, 129, 154, 158).

Só nesses – excluindo o colossal UFC 100, que teve Brock Lesnar x Frank Mir como luta principal e o recente UFC 167, contra Hendricks-, temos, em tickets e pacotes pay-per-views vendidos, cerca de meio bilhão de dólares em receita!

É ou não um bom funcionário?

E quanto aos fãs?

Bem, testemunhamos, no total, cinco horas e 28 minutos de St-Pierre em ação (recorde).

Foram 18 vitorias (recorde) – sendo 12 delas em lutas valendo cinturão (recorde)-, 1254 golpes significativos aterrissados (recorde), 86 quedas impostas(recorde), quatro finalizações, cinco nocautes e 11 decisões a favor (recorde).

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Menino diante do ídolo…

O jovem que, no passado, entregou flores e recolheu lixo nas ruas de Montreal foi muito além de seus sonhos mais otimistas.

E nós também não poderíamos ter pedido um embaixador melhor.

Além de eficiência monstra na jaula, fora dela, nenhuma pergunta ficou sem resposta franca e cordial – apesar do jeitão introspectivo.

Fãs foram tratados com carinho (nunca ouvi o contrário), e até adversários mais abusados tinham seu respeito incondicional (Nick Diaz, que o levou ao limite da boa vontade, recebeu o rótulo de “bobo sem educação”).

Egocentrismo, escândalos na vida pessoal entre outras mazelas comuns a astros do esporte jamais praguejaram o “atleta canadense do ano” em 2008, 2009 e 2010.

Em suma, GSP conquistou, com sua ética de trabalho, o direito de passar o resto da vida treinando com os amigos, viajando o mundo ou até se largando no cheeseburguer.

Oportuno ou não, o “timing” do cara foi esse e cabe a nós, que não calçamos seus sapatos, respeitá-lo.

Abraços.

    • Renato Saraiva Rebelo

      I am the one who knocks!

  • Maxwelll

    Rebelo sempre se superando, parabéns, ótima análise

    • Renato Saraiva Rebelo

      Obrigado, meu velho!

  • Jorge Luís Guimarães

    Venha cursar Economia, Renatão…já te disse rs

    • Renato Saraiva Rebelo

      Tô velho pra começar do zero, feroz, quem sabe uma pós… hehe Abração

      • Jorge Luís Guimarães

        tem futuro! haha

  • Fabrício Melo

    Cara. Gostei de absolutamente tudo que li. Matéria muito show. Ta de Parabéns. Fazia tempo que não via algo tão bem elaborado.

    • Renato Saraiva Rebelo

      Muitíssimo obrigado, Fabrício. Espero que você continue acompanhando = )

  • lmcosta

    Concordo em todos os sentidos.

  • Radioative

    Excelente artigo Rebelo, parabéns.

    GSP não deve nada, muito menos ao Dana White (que mais parece uma criança mimada) que como vc mesmo disse, trouxe MUITA grana pro ufc e tem todo o direito de pendurar as luvas.

    O Dana, como capitalista extremo que é, nunca vai concordar com isso e sempre vai querer mais da maior estrela dele.

    Com Anderson No mesmo caminho (saco cheio + bolso cheio = aposentadoria) e Cain de molho, o PPV do ufc pra 2014 não será dos melhores.

    Quem sabe assim, o ufc aprende a tratar melhor os atletas e não sair cortando depois de uma ou duas derrotas. N o jungle fight que as lutas terminam por nocaute ou finalização, não como a maioria do UFC (na decisão) com os dois atletas jogando com o livro de regras no suvaco.

    ê saudade do pride 🙂

  • Gleibson Cardoso

    Foi bem mais inteligente que o Anderson que vai sair com uma mancha. Já
    GSP, sabe que perdeu feio do Hendricks, porém saiu com com a vitória.
    com tudo isso que o colega Renato falou acima, mais uma derrota a vista,
    ele fez o que o AS era pra ter feito antes da sua derrota. Saiu por
    cima sem uma mancha (gênio pra uns, covarde pra outros). Se uma dia
    voltar a lutar vai acontecer o aconteceu com vários outros que sairam e
    reotornaram, ou seja, jamais vai ser o mesmo e talvêz perca pra alguém
    inexpressivel, ou seja, é melhor nem voltar.

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