Análise técnica: Maurício Shogun x James Te Huna

Fernando Cappelli | 05/12/2013 às 19:34

Pressionado por três derrotas nas últimas quatro lutas, Maurício Shogun encara James Te Huna nesta sexta-feira para provar que ainda é relevante na categoria até 93kg.

O australiano ainda contará com o apoio da torcida que comprou todos os ingressos disponibilizados pelo Brisbane Entertainment Centre.

Setor a setor, vamos tentar entender como eles se encaixam:

Trocação (por @fercappelli): 

Shogun

UFC+104+Machida+vs+Shogun+wum9Fuhr55fl

Golpe que derrubou o “Dragão”

Os últimos grandes lampejos de expertises técnicas e táticas demonstrados por Shogun aconteceram nos combates contra Lyoto Machida, em 2009 (quando acabou derrotado por pontos) e 2010 (quando nocauteou e garantiu o cinturão meio-pesado).

Após a perda do título para Jon Jones, o curitibano entrou num limbo que parece cada vez mais denso – e têm proporcionado sufoco de sobra em cada performance.

De forma geral, o brasileiro tem movimentação solta para um meio-pesado.

Sabe ‘ciscar’, pendular e fintar para adentrar raios de ação.

Nos últimos combates, têm pecado bastante em alguns detalhes, sobretudo em não adotar ações evasivas nos momentos de troca de golpes mais francas – causa e efeito de quando o preparo físico começa a pesar.

Shogun nunca prezou muito as combinações de golpes mãos e pés como principal base ofensiva.

Usa a maioria dos recursos de “striking” com eficiência, mas de forma mais isolada e instintiva.

Os chutes poderosos ao estilo ‘one shot kill’ típico do muay thai mais ortodoxo, que o tornaram famoso na época de Pride, parecem cada vez mais inconsistentes e raros.

Talvez aí esteja depositado pelo menos 40% da defasagem estilística que o tem assombrado nesta fase irregular.

Destro, tem bom poder de nocaute nos cruzados e overhands de esquerda (punho da frente em postura de luta).

Outra marca registrada é seu “uppercut” de direita, usado de encontro ao avanço dos oponentes e potencializado pela característica do lutador em puxar rapidamente o combate da média para a curta distância.

Ao contrário da cartilha mais usual para este caso, na qual o upper seria usado após uma finta ou preparo com outro golpe (um ou dois jabs, por exemplo), Shogun o usa diretamente, com grande amplitude de movimento.

Te Huna

UFC On FX: Te Huna v Rosa

Aaron Rosa: último a ser nocauteado pelo australiano

Com físico avantajado para a categoria meio-pesado, Te Huna ainda utiliza uma postura tradicional de boxe, com a guarda e a posição do tronco postadas mais lateralmente e com constante projeção de ombros como ponto de partida para defesas e movimentos evasivos.

Mesmo com estilo brigador baseado em overhands e outros golpes mais abertos, seu grande trunfo de movimentação tem sido usar inteligentemente o recurso do avança/circula.

Ao ajustar a distância com um pequeno passo para frente, já angula para o lado e assim evita colidir frontalmente com os diretos, cruzados e outras bombas que disparadas por oponentes.

Obviamente, em momentos mais francos, as ‘luzes oscilam’ e tática fica mais em segundo plano, mas o australiano aprendeu a golpear desta forma, e tem sido a principal marca registrada neste sentido.

Grappling (por @renatosrebelo): 

Shogun

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Perna de Randleman sendo esticada no Pride

Amigos em comum já rolaram com Maurício Shogun e atestaram o bom nível do faixa-preta de Cristiano Marcello.

Pela televisão, percebe-se que o cara manja dos leglocks e da meia-guarda.

O curitibano, no entanto, sempre me pareceu mais interessado em castigar e somar pontos do que avançar posições ou apostar nas finalizações.

Prova disso é que, em 29 lutas profissionais, apenas Kevin Randleman batucou contra Shogun.

O gás reconhecidamente problemático ainda põe em xeque a necessidade de recorrer integralmente ao jogo de solo.

Vale a pena gastar energia no agarra-agarra correndo risco de faltar potência para socos e chutes?

Apesar do “camp” em São Paulo com Demian Maia e outras feras do jiu-jítsu sugerir que esse será o caminho na Austrália, só vejo uma vitória proveniente do grude via chave de joelho/calcanhar ocasional – e não planejada.

Shogun brilha quando bate, queda, bate, levanta… Enfim, mistura.

Te Huna

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Ryan Jimmo sofrendo castigo

Não dizem que gato escaldado tem medo de água fria?

Três das cinco derrotas de Te Huna vieram por submissão.

Exatamente por isso, quando é posto de costas pro tablado, é pé no quadril, mão na cara, saída de quadril e “wall walk”.

E o “Man in Black” usa essa artimanha relativamente bem – graças à combinação força + tamanho.

Mas, faço dois adendos.

O primeiro é que ele curte bastante derrubar no “double leg” para fazer uso de ground and pound rústico.

O segundo é que, como sabemos, massa muscular de sobra demanda muito oxigênio (o bichão também cansa!).

Ou seja, se enveredaram pelo grappling, pode ser uma questão de quem bota a língua pra fora primeiro.

É inegável que Shogun entra com a corda no pescoço:

Essa é a luta da vida do Te Huna. Se ele vencer, vai entrar de vez no top 10, todo mundo saberá o nome dele e vai querer saber qual o próximo passo dele. E, sim, se o Shogun perder, eu provavelmente terei aquela conversa (sobre aposentadoria) com ele – garantiu Dana White.

O carrasco apresentado tá longe de ser um bicho de sete cabeças – mas também não se trata daquele moleirão pronto pra ser sacrificado.

A pergunta recorrente é: o internato em São Paulo trará à tona o bom e velho Maurício Rua? Se sim, levará vantagem em pé e no chão. Se não, só Deus sabe…

Abraços.

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