Flashback: O legado
do lendário Dan Henderson

Fernando Henriques | 13/10/2016 às 21:47

Encerrou-se em Manchester, no último final de semana, uma das mais impressionantes carreiras de MMA. O ex-atleta olímpico Dan Henderson estreou no esporte em 1997 (!), no Brasil (!!), contra o aluno de Carlson Gracie Crézio de Souza, que foi superado via TKO.

captura-de-tela-2016-10-13-as-20-25-47Na mesma noite, Hendo conquistou sua segunda vitória no esporte, contra o compatriota Eric Smith (que havia vencido José “Pelé”), através de uma guilhotina que lhe garantiu seu primeiro título no MMA: campeão meio-pesado do Brasil Open.

No ano seguinte, Henderson estreou pelo UFC – à época ainda modesto no quesito produções e com modelo de negócios calcado no formato de GP.

Na mesma noite, o americano da luta greco-romana despachou outro brasileiro aluno de Carlson Gracie – Allan Góes -, não sem antes sofrer dois knockdowns (o resultado foi polêmico), e o duro canadense Carlos Newton.

Mais um título de GP para conta, dessa vez entre os médios.

Um começo e tanto no esporte, não?

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Vitória contestada sobre Minota

Hendo é um vencedor nato. Até o ano 2000 ainda competia pela seleção americana de greco-romana, tendo ido às Olimpíadas de Sidney como reserva.

Entre 1999 e 2000, acumulando dois esportes de alto rendimento nas costas, de naturezas tão distintas, conquistou importantes vitórias no histórico Rings, no Japão, se colocando de vez entre os grandes do esporte em sua geração – e, posteriormente, em mais duas adiante.

Foram cinco lutas em dois dias: a fase classificatória, em outubro de 1999, e a fase final, com três lutas na mesma noite, em fevereiro de 2000.

Para sagrar-se campeão deste distinto torneio, recheado de estrelas da época, Hendo, ainda novo no esporte, deixou para trás nomes como Gilbert Yvel, Rodrigo “Minotauro” (resultado polêmico, decisão dividida) e Renato “Babalú”, que na época ainda representava o time de Marco Ruas e da luta livre e já era um dínamo.

Team Quest

Team Quest

Detalhe que você já deve ter notado: o torneio foi no peso-pesado.

Assim, em três anos de esporte, com dedicação parcial, Hendo já possuía três títulos de GP — um em cada categoria. 100% de aproveitamento, tendo enfrentado os lutadores mais duros para conseguir tais glórias.

Foi com esse histórico incrível que ele foi contratado pelo Pride, ainda em 2000, e escalado para fazer uma luta com a sensação Wanderlei Silva.

O desfecho, vocês já sabem, a primeira derrota do americano no MMA, vendida a alto preço, conforme a face de Wanderlei expôs ao final do combate. Este que podemos considerar, sim, um dos maiores de todos os tempos. Que luta!

Henderson estava ainda aprendendo a usar sua pesadíssima direita. Nesta longa luta, ele precisou ir além do wrestling e não decepcionou.

Campeão de tudo no Pride

Campeão de tudo no Pride

Na sequência de sua carreira no Pride, o americano esteve em outros grandes combates, mas oscilou entre vitórias e derrotas – o nível era altíssimo e, para piorar para ele, haviam apenas duas categorias: até 93kg e mais de 93kg.

O nocaute bruto em Renzo Gracie talvez tenha apresentado a H-Bomb ao mundo. A vitória por decisão dividida num lutão contra Murilo Ninja talvez tenha lavado sua alma contra a Chute Boxe.

E os atropelos em alguns japoneses certamente serviram para aprimorar suas habilidades de striking, culminado no TKO em cima do experiente e habilidoso Murilo Bustamente, que mais adiante reencontraria Hendo em condições mais equilibradas.

Estávamos em 2003 e no caminho até Bustamante, uma luta que marcou a evolução do jogo do americano para um nível top no striking e no grappling (Bustamente havia se tornado campeão dos médios do UFC no ano anterior), duas derrotas impactantes ficaram para trás.

O atropelo no grappling imposto por Ricardo Arona e a revanche bem sucedida de Rodrigo Minotauro, que o finalizou com um armlock no longínquo terceiro round.

Derrota para Minotouro no PRIDE FC

Derrota para Minotouro no PRIDE FC

Entre 2003 e 2004, Hendo venceu quatro japoneses, sendo Yuki Kondo o mais duro entre eles. Já em 2005, nova derrota para a BTT. Outro justo armlock o pegou, desta vez aplicado por Rogério “Minotouro”, que o tirou de um dos GPs mais incríveis realizados pelo Pride (o GP meio-pesado de 2005, vencido por Maurício Shogun).

Foi sua segunda derrota por finalização em oito anos de carreira e isto sem saber muito de solo (de costas para o solo, mais precisamente). Desde o início até semana passada, quando se aposentou, ele seria finalizado apenas mais duas vezes em 11 anos. Ficou de bom tamanho.

Após sua estreia vencedora em 1997, esta era a pior fase do americano no esporte. Não por sua culpa, pois sempre entregou luta dura a todos com quem lutou, seja entre os médios, meio-pesados ou pesados, mas pelo alto nível de MMA praticado no Pride.

Foi então que novas divisões de peso se estabeleceram e o já veterano neste jovem esporte viu seu nome ser entalhado na história do Pride e MMA por tabela.

Com a invenção da linha de eventos chamados Bushido, o Pride passou a promover lutas em mais duas categorias de peso: até 73kg e até 83kg. Hendo é um peso-médio natural, apesar de nunca ter gostado de cortar peso para lutar.

Ao vencer o GP do PRIDE em 2005.

Ao vencer o GP do PRIDE em 2005.

Inscrito como favorito no GP que coroaria o primeiro campeão do peso, despachou na mesma noite Ryo Chonan e Akihiro Gono, no Pride Bushido 9, para se classificar para a disputa no final do ano contra o outro finalista, Murilo Bustamante.

Neste novo encontro, em 31 de dezembro de 2005, na categoria certa, vimos uma luta muito mais parelha, dominada pelo brasileiro na maioria do tempo.

 

Bustamante chegou a aplicar um tiro de meta no americano durante a luta, dado o domínio, mas no round final sofreu um knockdown e viu a vitória escapar na decisão dos juízes (dividida), que favoreceram Hendo baseado na regra do Pride que priorizava quem mais estivesse chegado perto de encerrar a luta.

Mais um título para o vencedor Dan Henderson, que não chegou defendê-lo até o fim do Pride — o confronto posterior no peso contra o duro Kazuo Misaki não valeu cinturão.

Muito menos a revanche entre eles, inserida na segunda fase de um novo GP dos médios da organização, que marcou a primeira derrota de Hendo até 83kg no Pride e também valeu a coroa do peso.

Assim, quando foi chamado pela organização para figurar no primeiro Pride realizado em terras americanas contra Vitor Belfort, no peso de cima, Hendo teve a chance de fazer história.

Tendo vencido Belfort usando a velha receita de frustrá-lo no chão, Hendo, campeão dos médios (no Pride chamava-se meio-médio e o meio-pesado era chamado de médio), ganhou a chance de disputar o cinturão meio-pesado que há cinco anos pertencia a Wanderlei Silva.

Se fizesse o improvável e superasse Wanderlei, faria história e seria o primeiro entre as grandes organizações de MMA a sustentar dois cinturões ao mesmo tempo.

hendowandyE qual não foi o resultado? KO lindo em cima do brasileiro. O Pride encerraria suas atividades naquele mesmo ano (2007) e Hendo levaria os dois cinturões para o UFC, para fazer ainda mais história.

Só que em sua terra natal, ele nunca teve a mesma sorte. Lutou e perdeu suas duas primeiras lutas neste retorno ao UFC para os campeões Anderson Silva e Quinton Jackson, perdendo a chance de acumular os cinturões do Pride e UFC.

Contra Anderson, um primeiro round duro a seu favor foi precedido por uma surra no segundo, terminando em esgana galo do brasileiro.

Já contra Quinton, tivemos uma luta dura entre dois wrestlers, onde prevaleceu aquele que estava em seu peso natural.

Os frustrantes resultados não arrefeceram Dan Henderson. Ele não chegou em Marte, mas já tinha andado na Lua sob a vista de todos nós.

tumblr_mysigcdti71ry1rm7o1_400Sua sequência no UFC foi boa, com três vitórias contra ótimos nomes (Rousimar “Toquinho”, Rich Franklin e Michael Bisping), mas não tão vistosa para um fazedor de recordes como ele.

Saiu do UFC por cima, após quase arrancar a cabeça do queridinho inglês no centésimo evento da marca, e foi buscar fazer história novamente no Strikeforce, que crescia a olhos vistos.

Lá, perdeu a base do grappling a disputa do cinturão dos médios contra Jake Shields, mas subiu de peso e conquistou mais um cinturão meio-pesado para sua coleção, ao toma-lo das mãos do brasileiro Rafael “Feijão”.

Estávamos em 2011 e Hendo não precisava provar mais nada. Já era uma dos atletas mais vencedores da história. Porém, para coroar ainda mais seu legado de desafios, veio aquele talvez tenha sido o maior: enfrentar num duelo até 100Kg o maior peso-pesado da história, que havia passado 10 anos invicto na época de ouro do Pride.

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Mais um pra conta

Fedor Emilianenko era muito favorito contra Dan Henderson e o início da luta mostrou isso.

Mas a sagacidade do americano não o deixou sucumbir e, num movimento magnânimo de wreslting, o miúdo Hendo saiu debaixo do portentoso russo e se colocou em posição de fazê-lo conhecer sua poderosa bomba de direita.

O peso médio Dan Henderson havia entrado para o seleto grupo de lutadores (só ele e Fabrício Werdum) que derrotaram dois dos maiores peso-pesado da história, Minotauro e Fedor.

Bizarro. Tão bizarro que podemos encerrar por aqui.

A sua última passagem pelo UFC, findada com uma disputa de cinturão aos 46 anos, onde quase tornou-se, enfim, campeão linear (eu marquei a luta para ele), foi igualmente épica apesar das muitas derrotas, pois foi desafiadora (o que foi aquela luta contra Daniel Cormier?) e marcada por superações – as vitórias contra Shogun e Hector Lombard estão na história do esporte.

Vá descansar em paz, Hendo, você foi grande!

  • Lucas Apolo

    LENDA!

  • Silas K

    Só por ter dado três knockdowns no Bisping já entra na minha lista de lutadores preferidos.

  • Flashbacks do Fernando Henriques deveriam virar verbetes da Wikipédia assim que são publicados no Sexto Round.

  • KRS Porlaneff

    Fernando, um texto digno de ser aplaudido de pé. Dan Henderson foi – e é – tudo isso e mais um pouco.

  • Jônatas Freitas

    Putz..vai fazer muita falta o Hendo, lenda! Excelente texto, Paranhos!!

    • Paranhos é foda mesmo, parabéns pra ele!

      • Jônatas Freitas

        Foi mal irmão, comentei na correria, haha. Parabéns, Fernandão!

  • Jônatas Freitas

    Dificil escolher qual nocaute foi mais brutal..Bisping ou Wand?

    • Hyuriel Constantino

      Acho que o do Bisping foi mais emblemático. Caiu todo durão. kk

  • Bruno Barbosa

    Simplesmente Hendo! Adeus lenda :’)

  • Hyuriel Constantino

    Excelente texto, Fernando. Sem mais.

  • Saulo Henrique

    Como diz o boss Renato: o banguela está no monte rushmore do mma. Ótimo texto.

  • Marcio Lennon

    vale lembrar que esse casca grossa quase se degladiou com jon jones, na epoca seria epico, apesar de provavelmente ele ser surrado por jon, mas essa luta deveria ter acontecido, no mais o maior casca grossa sem duvidas.

    • Torci muito para que a luta acontecesse à época. Só faltou o Jones para falarmos que o Hendo enfrentou todos os mais duros lutadores da história.

  • Leo Corrêa

    Apenas uma pessoa não gostou da cambalhota de Dan Henderson. Seu nome é Renzo Gracie.

  • Ícaro Nogueira

    Que matéria sensacional, meu caro. Muito obrigado por nos proporcionar – com tanta dedicação – esta narrativa da carreira ímpar de Dan Henderson.

  • Carlos Henrique Klein

    Sensacional e emocionante!

  • Romulo Aleixo

    Os textos do Fernando Henriques são um esculacho!!!! Esse então, ficou praticamente uma obra-prima!! Parabéns, Fernando, por conseguir sintetizar um pouco de todo o legado desse monstro chamado Dan Henderson, e nos proporcionar essa emoção de clima de despedida.

  • Mauricio

    Hendo foi fodah! Total respeito por ele!

  • Tiago Andrade

    Texto definitivo sobre Dan Henderson. É pra salvar e deixar guardado.

  • Lucas Souza

    Que texto! Parabéns pelo trabalho, Fernando.

  • Beto Magnun

    Vale lembrar que a luta dele com o Shields foi uma das melhores daquele ano.

    • Lembro-me de ter ficado impressionado com o desempenho do Shields, que o derrubava, passava e montava como eu nunca tinha visto acontecer no peso-médio.

  • Rodrigo Xavier

    Se aposentou em ótimo momento, veio de uma vitória contundente sobre o Hector e fez uma luta duríssima com o Bisping (na minha contagem venceu). Grande carreira.

  • Pedro Augusto Monteiro

    Fez uma história muito bonita no MMA, mas o engraçado é que pouca gente percebeu que o Dan Henderson possui uma falha primária de movimentação, nos descocamentos laterais ele cruza as pernas, isso diminui a reação defensiva dele. Um lutador que percebeu essa falha foi o Vitor Belfort, que foi alertado pelo Vinicio Antony, reparem que na terceira luta contra o Dan Henderson, o Vitor entrou com um chute circular no momento dessa falha. Na ultima luta contra o Bisping, ele cometeu esse erro umas 5 Vezes, o Bisping não soube aproveitar.

    • Na real, ele sempre se superou, com muita malícia e propensão genética para o esporte, pois tecnicamente sempre foi limitado (fazia pouca coisa muito bem) e alguns pontos específicos, como esse, tinha vícios incorrigíveis. Mas era um guerreiro! Dificilmente o esporte, no patamar atual, com sua cultura do business, formará lutadores tão duros como Hendo foi.

      • Glauco Lopes

        Disse tudo, belo texto , parabens!!

  • Gabriel Castelani

    Que ótimo recordar tudo isso! Sem dúvidas um dos mais grandes casca grossas de todos os tempos. Faltou a menção ao queixo, que somada a BOMBA H fazia grandes estragos. Outro detalhe, GENETICA! Não me lembro de ver o banguela com grandes cortes ou sangramentos.
    O shogun chegou a comentar isso depois daquela luta épica entre ambos, se dizia frustrado por bater e não conseguir corta-lo.

    • O processo evolutivo foi generoso com o Hendo. Visualmente, não parece muito, mas em ação ele tinha tudo que um bom lutador precisa ter.

  • No clima de nostalgia, um confronto de submission lendário envolvendo Dan Henderson nos idos de 1990:
    https://www.youtube.com/watch?v=JLjGDnDUD2I

    • Hendo não bateu pro Toquinho, mas bateu pro Frank Shamrock, que lutava demais nessa época.

  • Glauco Lopes

    Dos tempos onde lutar era coisa de sujeito homem, da epoca que o Vale Tudo não tinha se tornado essa palhaçada midiática chamada MMA, nos tempos onde fã não era metido a analista de marketing e ficava falando sobre PPV, promoção, twitters e etc. Onde não se chorava por 3 kg acima do limite do peso. Bons tempos!!!

  • douglas karpinski

    talvez o lutador que mais pegou pedreira no esporte, todo oi respeito é pouco pro banguela

  • lee

    Na moral , parem de banalizar as palavras. Lendário? sério mesmo? Pelo amor de Deus!” Fedor é lendário, spider é lendário…roice ´é lendário..esse cara é lendário aonde , cara?

    • Tão lendário quanto os supracitados, tendo inclusive derrotado um deles em condições adversas.

  • FabioH

    Belíssimo texto Fernando! Foram lendas como Dan Henderson que iniciaram nossa paixão pelo esporte!

  • Ale Gustavo

    QUE TEXTO.
    arrepiou… esse foi um gigante.
    carreira memorável, só fez lutão.
    Obrigado pelas palavras @FernandoHenriques:disqus !

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